Em tempos de COVID-19

Em tempos de COVID-19 tudo se torna um pouco em vão. Ando sempre cheio de planos e projetos, ando sempre cheio de confabulações, tarefas e agendas. Trabalho muito no restaurante e, nos tempos livres, escrevo para os meus blogs, ajudo minha mãe coma empresa, procuro parcerias para projetos e crio planos.

Uma vida corrida e atribulada que começa, em geral, em torno das seis horas da manhã, com o café da minha filha e vai até a meia noite com meu retorno para casa. Não muito diferente da sua e da grande maioria dos não bilionários. Nós, não bilionários, costumamos ter uma vida que não combina com quarentena e recolhimento forçado.

Claro, nesses primeiros 3 dias, tomei café na varanda, estudei alemão com minha filha recém chegada na Suíça, apreciando a bela vista das colidas esverdeadas. Tomo um chá na mesma varanda no fim do dia apreciando o pôr do sol sobre o lago Zurique. Tudo muito lindo e prazeroso.

Mas, eu tinha uma reunião bem bacana, sobre uma possível parceria mais bacana ainda, para um projeto, hiper bacana, nesse sábado, mas que foi desmarcada. Foi deixada para esse tempo incerto e invisível de pós-pandemia. Essa freada forçada do mundo é bastante desagradável. Absolutamente fundamental para que mantenhamos a possibilidade concreta de um mundo pós, mas muito chata.

Quando entramos em férias, passamos um período, muitas vezes longo, organizando e preparando a parada. Muitas vezes as férias acabam sendo cansativas devido as agendas apertadas. Mas, nesse toque de recolher, em 3 dias fomos jogados em suspensão. Fomos arremessados para dentro de casa sem aviso prévio.

Não há passeios, não há confraternizações, não há viagens. Sair resume-se ao mercado e farmácia.

Nesse improviso de parada, revisei meu currículo, hoje fizemos uma faxina monstra na casa, desenhamos, jogamos escopa, MTG, vimos séries, estou relendo alguns livros e HQs. Estou pensando em provocar algumas intrigas entre os membros da família para causar discussões e diminuir o tédio.

Escrevi um texto amargo sobre o pessoal que não cumpre a quarentena e não colabora. Publiquei, mas não difundi, muito amargo.

Também tenho refletido sobre os possíveis desmembramentos da pandemia: mortos, doentes, desemprego, ruína financeira global, miséria, ou, por outro lado, farsa, continuidade normal da vida, jogos de guerra fria, crescimento do varejo pelo medo, China.

Me sinto como num turno de Magic The Gathering, onde eu acabei de jogar o meu turno e preciso aguardar os desdobramentos dos próximos jogadores antes de poder tomar decisões. Sei o que eu quero e posso fazer, mas agora é o momento do outro jogar, só posso, se for o caso, conclamar as minhas defesas e aguardar o tempo passar sem perder o foco e atenção no jogo.

Talvez, aonde você esteja lendo a postagem, a quarentena ou a propagação não seja tão severa. Mas aqui na Suíça é, e é uma consequência direta da propagação explosiva da Itália. Espanha e França também estão explodindo e tem quarentenas severas. No momento em que escrevo, aqui na Suíça são mais de três mil casos em uma população de um pouco menos de 9 milhões de pessoas em um país com uma densidade demográfica enorme. A segunda maior propagação per-capita nesse período da pandemia.

Isso significa que todos os compromissos que não estão ligados a uma situação emergencial estão automaticamente cancelados. Claro, trocamos mensagens e telefonemas para desmarcar os eventos. Eu teria duas consultas médicas para check-up essa semana. As clínicas ligaram, perguntaram se eu tinha sintomas de CONVID-19, quando eu disse não, eles cancelaram. O dever os chama.

Assim, o processo e semear o futuro está adiado. Muito estranho isso, mas muito real. É certo que, apesar do enorme número de contaminados e doentes que teremos no próximo mês, não teremos o mesmo número de mortes que tivemos em 1918-20 com a Gripe espanhola. Mas, alguns desdobramentos serão muito mais severos a médio e curto prazo.

As pequenas e médias empresas Suíças se mobilizaram junto ao governo requerendo fundos de amparo para que não desapareçam durante esse período. O mesmo acontece na França, na Espanha, na Itália e no irmão rico, a Alemanha. Os pequenos mercados, vendas, restaurantes fabriquetas e fábricas, mesmo grandes indústrias estão completamente paradas.

A SBB, a gigante dos trens e transportes suíços determinou uma alteração nas escalas e deslocamentos do transporte público. Ela quer, em partes, diminuir os trens fantasmas e por outro lado manter a organização e disponibilidade necessária de transporte público. A SBB anúncio em janeiro dois recordes: Número de passageiros e lucro no ano de 2019. Doce ironia para os anarquistas que tanto a odeiam.

O prejuízo na primeira semana de COVID-19 foi de CHF500.000,00 ao dia (algo em torno de R$25.000.000,00) e nem tinha sido decretado o trancamento da existência de seus clientes. Hoje não sei como devem estar as coisas. Mas, se está ruim para a SBB, imagine como está para o mercadinho do turco ou para a pizzaria.

Os funcionários legalmente registrados e em dia com suas taxas terão seus salários cobertos pelo seguro desemprego. Mas, e os outros custos? E o giro? E a manutenção da marca? E os clientes de linha de frente, os de todos dias? Como fazer? Como resistir?

Também pensei no que me disse a secretária do meu médico: “precisamos desmarcar tudo que não é emergencial. Temos que deixar a clínica pronta para uma emergência. Seremos a segunda linha de ‘impacto’”. O ambulatório no qual eu teria minha consulta é no Spital Linth. O hospital de referência aqui na região. Excelente por sinal, tem mais leitos do que o número de habitantes da minha cidade, portanto, atende toda a região.

Li no jornal pela manha que na Suíça só temos mais 160 leitos de UTI. Acho que a secretária se referia a isso. Quando a linha do pronto atendimento lotar, quando a crise transbordar, eles terão que estar fortes, descansados, saudáveis e com espaço. Quando não houver mais leitos.

Li também, mas ontem, que o exército Suíço, o maior contingente militar do planeta (dois milhões de pessoas entre ativos e reserva) está se dirigindo para Ticino, na divisa com a Itália para montar hospitais de campanha. Nada disso é Fakenews, fui checar.

Com esse tipo de informação, o que se pensar? O que planejar?

Uma amiga do Facebook, muito religiosa, publicou um salmo do tipo “atravessar o inferno e não ser queimado”, ou qualquer coisa de cristãos, mais ou menos equivalente. Lembrei imediatamente da peste-negra e dos cristãos dizimados em massa porque era errado tocar o próprio corpo e, portanto, tomar banho e lavar as mãos. Não era exatamente a peste o problema, era a imundície.

Obrigado por ler, amanhã escrevo de novo.